Casas vendem-se com sonho. Negócios vendem-se com números.
Quem compra uma casa, compra um sonho.
Compra a luz da sala ao fim da tarde. A cozinha onde imagina os jantares. O quarto com vista. A linguagem da habitação é a linguagem do sonho, e está bem assim. Quando alguém escreve "casa charmosa, com a luz que sempre quiseste", está a descrever exatamente aquilo que vende, e quem compra precisa de se imaginar a viver ali.
Quem investe num negócio compra outra coisa. Compra retorno.
Não compra o charme do espaço. Não compra a história do fundador. Não compra o sonho de "ter um negócio um dia". Compra um ativo que tem de pagar o investimento e gerar margem. Quem tem capital para investir num negócio sabe disto.
E é aqui que o mercado se enganou.
Pegámos na linguagem da habitação e colámo-la aos negócios. "Excelente oportunidade de investimento, espaço acolhedor, com enorme potencial, em zona privilegiada." Lemos isto vezes sem conta. E quantos possuem uma análise financeira feita ao negócio? Praticamente nunca é feita. Não porque não importe, mas porque o mercado ainda não está estruturado para a fazer.
E os próprios anúncios falam assim. Quando um negócio entra para venda, é descrito com a linguagem que se usa para vender uma casa, não com a linguagem que descreve o que ele realmente é. Só que o sonhador com dinheiro para gastar é uma espécie em vias de extinção.
Quem investe hoje quer saber o retorno. Pergunta períodos de payback. Analisa margens. Quer ver faturação comprovada. Os investidores que conheço trabalham com referências claras para períodos de retorno de investimento, mais o potencial do imóvel em si. Isto não é exigência. É o mínimo que pedem para sequer olhar para o processo.
Quando um vendedor se recusa a abrir os números, há sempre uma de duas razões.
A primeira é que os números não justificam o preço pedido. E aí o problema não é mostrá-los, é o preço. Esconder informação não muda a realidade, só atrasa o momento em que se descobre. E vai descobrir-se na mesma. Ou o negócio não vende, ou vende a um sonhador. E aí entramos noutro problema: estamos a passar um negócio sem rentabilidade comprovada para alguém que vai descobrir isso depois de assinar. Há ainda o caso do investidor experiente, que vê potencial e margem para melhorar mesmo sem números perfeitos, mas esse não é o sonhador, é exatamente o oposto. Esse já fez as contas de cabeça antes de te ligar.
A segunda razão é receio de exposição. E é uma razão legítima. Os números de um negócio são informação sensível. Não se mostram a quem telefona a perguntar. Não se enviam por e-mail para desconhecidos. É aqui que entra o trabalho do consultor: filtrar quem tem perfil, capital e intenção real antes de qualquer informação financeira ser partilhada. Os números só chegam a quem está em condições de avançar, e nos momentos do processo em que faz sentido. Este é literalmente o meu trabalho, proteger a informação do vendedor enquanto crio as condições para o investidor certo poder decidir.
Quando este filtro existe, a conversa muda.
O vendedor deixa de estar à mercê de qualquer curioso. O investidor sério deixa de estar a comprar às escuras. Os dois lados ficam onde têm de estar.
Vender um negócio com a linguagem certa não é frio. É honesto. É dizer ao investidor certo: o negócio fatura X, tem margem Y, paga-se em Z anos, e o imóvel acrescenta este valor. É isto que abre o universo de investidores reais. É isto que sustenta o preço que o vendedor pede.
Sem isto, ficas a competir por sonhadores cada vez mais raros. Quem hoje compra um negócio, investidor ou família, compra por lógica, não por emoção. E está cada vez mais informado.
Se estás a pensar vender o teu negócio e te reconheces em algum destes pontos, fala comigo antes de ires para o mercado.
A primeira conversa serve para perceber em que cenário estás, o que os teus números realmente dizem, e como apresentar o teu negócio a quem está em condições de o comprar pelo que vale.
Vender sonhos é trabalho da habitação. Vender negócios é outra coisa.
E confundir as duas custa dinheiro a quem vende, e custa o futuro a quem compra.
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Cátia Gonçalves — Consultora Imobiliária, Century 21 Realty Art Especializada em negócios activos e propriedades de investimento no Algarve
